Um dia, sei lá porque razão, fiquei puxando na memória para lembrar o que gostava de comer quando pequena. E lembrei de bolacha maria na casa da Vovó, embrulhada em papel de bodega, os pedaços de carne que minha tia fazia para mim na brasa, e creme de graviola na casa da tia Marlene, e bife de baleia na casa da minha madrinha em Fortaleza, e pão massa grossa partido ao meio com manteiga e salpicado com açúcar – parecia céu estrelado…E lembrei de abiu, que grudava os lábios ao comer, e cacau no quintal da minha amiga Carla nas férias, e peixinho frito na praia de Salinas, e sapoti, e manga, e caranguejo a toque na AABB de Belém. Todas estas coisas eram boas e ficarão comigo pro resto da minha vida. Só que nenhuma delas me vinha à mente como ‘meu prato favorito’. Então resolvi perguntar à minha mãe. E ela me disse sem titubear, sem dar pausa para o pensamento: “Estrogonofe”. Fazia até para teu aniversario”. E de repente lembrei meio que vagamente de como estrogonofe havia sido sempre muito presente na minha vida. Houve uma época em que contava que era muito popular no Brasil. Mas talvez esta minha idéia tenha sido por conta da minha memória.
A conversa do estrogonofe me fez questionar a minha mãe outras vezes e descobri também que: adorava água de coco – chegava à casa do meu avô e pedia para pegarem coco no quintal para tirar a água; adorava bolinhos – tinham que ser pequenos e me recolhia com eles a uma mesinha na então casa onde morávamos para brincar e depois devorá-los.
Fiquei aliviada por ver que várias pessoas foram questionar mães, avós. Me senti menos incompetente no quesito memória. Meu irmão tem uma memória poderosa, lembra de detalhes incríveis. Às vezes fico lá espremendo todos os cantinhos do cérebro e nada.Ou só gotinhas de acontecidos respingam.
E neste tom lhes conto os ingredientes do estrogonofe da minha mãe. Sem quantias exatas. O meu da foto foi só uma leve lembrança do da minha mãe, que além de ser alguém que cozinha muito bem usa ingredientes jamais reproduzíveis por outros (amor, o querer agradar ao filho ou ente querido). Como a Patricia contou de como se sentiu ao comer a sopa de arroz da mãe dela, a garfada do estrogonofe me levou a uma viagem a um paraíso interior. Irreproduzível.

O estrogonofe da Dona Nilza levava:

Filé mignon
Champignon
Ketchup
Vinho branco – para marinar
Mostarda (não era de Dijon nos dias da minha infância)
Brandy para flambar
Creme de leite
Cebola picadinha
tempero

E o modo de preparo é o de todo mundo que faz estrogonofe. Sempre era servido com batata palha.

Peço desculpas mas a resenha dos emails que recebi com lindos textos e receitas será publicada no sábado dia 3 e não hoje como havia prometido. Tive alguns contratempos e me atrasei. Como vêem o post só esta saindo hoje. Se alguém quiser mandar receita até amanhã dia 2 receberei com prazer.